Peninha

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Capela de S. Saturnino

A capela de S. Saturnino já existia na época do primeiro rei de Portugal.

D. Paio Peres, fidalgo de D. Afonso Henriques, depois da morte do rei torna-se eremita na referida capela após obter a permissão de D. Sancho I.

A capela era pertença dos Padres de S. Vicente de Fora, de Lisboa. Sabe-se que ao culto de S. Vicente estavam muito ligados os moçárabes no período islâmico.

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Capela de S. Saturnino, fachada oeste.

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Capela de S. Saturnino, fachada sul.

Confraria de S. Saturnino, de Alcabideche

Data de 8 de Março de 1657 a primeira referência à confraria de S. Saturnino. No livro das Visitações* e no mesmo livro, com a data de 3 de Outubro de 1683, o visitador dá ordem para que a confraria proceda a obras na referida Ermida de S. Saturnino e que mande fechar portas e janelas, não deixando entrar nelas animais, proibindo que lá dormissem pessoas. O visitador do ano de 1724 fala na existência na igreja de Alcabideche de uma cruz de prata pertencente a esta confraria e manda limpar a ermida de S. Saturnino.

Interior da capela de S. Saturnino (Do exterior para o interior)

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Interior da capela de S. Saturnino (Do exterior para o interior)

A última referência que encontrámos relacionada com S. Saturnino vem no Livro de Actas da Junta da Paróquia de Alcabideche, em 16 de Setembro de 1866, quando os festeiros de S. Saturnino requeriam que se lhes entregassem as alfaias daquela confraria para as poderem usar na festa em honra do santo (29 de Setembro).

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Será esta a cruz processional da Confraria de S. Saturnino de Alcabideche, registada como sendo de N.ª Sr.ª do Cabo? Encontra-se depositada no Museu de Arte Antiga, desde 1911, bem como outras alfaias religiosas pertenças da mesma confraria de S. Saturnino, retiradas da Igreja de S. Vicente de Alcabideche e atribuídas erradamente ao espólio do Círio Saloio de N.ª Sr.ª do Cabo.

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Cruz processional da Confraria de S. Saturnino de Alcabideche?

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(Pormenores)

"Fica este lugar na serra de Nossa Senhora da Peninha. Pertence a dita Ermida ao Eminentíssimo Senhor Cardial Patriarca, pois apresentava para ela uma capela. Tem mais a dita serra uma Ermida de São Saturnino; pertence aos Padres de São Vicente de Fora da cidade de Lisboa. Descobre esta serra o mar todo. Tem a caça de perdizes e coelhos, pois é coutada de Sua Majestade. Acodem às ditas ermidas romagens pela segunda oitava da Páscoa e também em o mês de Agosto e dia do Santo. Tem a dita serra meia légua desta fraga até ao cume dela."

(o cura Fortunato Lopes de Oliveira, em 1758)

 

Lenda de Nossa Senhora da Peninha

A coroar o último monte da cadeia de acidentes que constitui a Serra de Sintra, emerge, da penhascosa e despida encosta, a silhueta altaneira e vigilante de uma singela e antiga ermida da invocação de Nossa Senhora - a da Peninha. Embora se situe já na área de Sintra, a sua história, por ancestral tradição, está ligada, desde os primários, ao concelho de Cascais, designadamente à antiquíssima povoação de Almoinhas Velhas.

Conta-nos, em 1707, Frei Agostinho de Santa Maria, no seu Santuário Mariano, «por tradição conservava entre moradores da Vila de Sintra, que, no reinado de D. João III», a uma pastorinha do «lugar das Almoinhas Velhas de Malveira» apareceu Nossa Senhora, «no alto de um penhasco que, por ser mais pequeno que outros daquela fragosa serra, lhe chamaram a Peninha, que é eminentíssimo e tem uma grande vista de mar e terra».

Andava a pastorinha, que era muda de nascença «e por natureza branda e bem inclinada», na serra a apascentar suas ovelhas, como era seu costume, quando lhe fugiu uma, «a todo a correr», e só parou no alto da Peninha. «A este lugar a foi buscar a pastorinha. Toda lacrimosa, pelo excessivo trabalho em que a pusera». Aqui chegada, «viu com admiração uma menina muito formosa (...) que estava junto da ovelha». Inquirida por esta ao que vinha, apesar de muda, «recebendo ela aos impulsos desta soberana voz, a de que carecia», respondeu-lhe. Então a menina disse-lhe «que a levasse a sua mãe e que dissesse lhe desse pão». Como nesse tempo «era grande a falta que havia de trigo e também a grande fome», a pastorinha declarou que «sua mãe não tinha pão», ao que a menina , insistindo, disse «em tal arquinha tinha tantos pães».

Já quase noite, chegando a pastorinha a casa, «bradou pela mãe, que a desconheceu na fala, porque nunca a tinha ouvido falar, e, reconhecendo ser sua filha, foi tão grande sua alegria que acudiram os vizinhos». Depois a jovem pediu pão e perante a recusa da mãe, por não o ter, «encaminhou-se para a arquinha, aonde se viram cinco ou seis pães, que a Senhora lhe havia dito».

Então contou tudo o que de surpreendente lhe tinha sucedido.

«No dia seguinte, se ajuntaram os pais e os vizinhos, e indo todos áquele rochedo da Peninha(...) para verem se estava ali alguma pessoa, viram, em uma rotura da penha, umas pedras postas de mão e entaladas que a fechavam. Tiraram-nas e dentro descobriram a imagem da Senhora que hoje se venera naquele lugar.

Alegres todos com o achado da pedra preciosa que descobriram», depositaram a imagem com toda a veneração, na capela de S. Saturnino, que lhe ficava perto. «Mas a senhora que havia santificado o primeiro lugar e o havia escolhido para nele ser venerada», por três vezes abandonou a capela para se postar no penhasco da Peninha. Então, «como viram que a Senhora só aquele lugar queria, trataramde lhe fazer uma ermidinha, ajustada com a pobreza daqueles pobres aldeões».

Inicialmente a ermida foi construída em pedra seca, mas os ventos, «que são ali muito rijos e desabridos», depressa a colocarem quase arruinada. «A fama de algumas maravilhas que a Senhora logo começou a obrar despertou outros circunvizinhos daquele distrito» que empreenderam a edificação de mais sólida capela. Esta foi arrasada em 1673, para dar lugar à que ainda hoje existe.

O culto a N.ª Sr.ª da Peninha sofreu notório incremento no reinado do cardeal D. Henrique, acorrendo à ermida as populações das vilas e aldeias da região, como Colares, Sintra e Cascais.

Durante séculos organizaram-se numerosos círios e romagens.

Em 17 de Junho de 1915, na sessão da Comissão Executiva da Câmara Municipal de Cascais, foi comunicado pelo Sr. Seguro que, "na passada segunda-feira se realizou na serra da Malveira a vistoria para a delimitação do concelho de Cascais com o de Sintra."

Limite da Peninha em linha recta ao marco da rainha (próximo da Pedra Amarela).

No dia 12 de Maio de 1991, realizou-se a procissão em honra de N.ª Sr.ª da Peninha, levada a efeito por uma comissão de fiéis da Malveira da Serra.

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Capela de N.ª Sr.ª da Peninha, 1941
(Foto João da Cruz Viegas)

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No lado sul da Peninha, já na freguesia de Alcabideche, existe uma fonte que no interior tem uma lápide que diz:

«De Lisboa os devotos de N.ª Sr.ª da Peninha que a festejam pelo Espírito Santo mandaram fazer esta fonte no ano de 1739.»

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Fonte dos Romeiros de N.ª Sr.ª da Peninha

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Base do cruzeiro que encimava a fonte dos romeiros da Peninha.

 

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Inscrição dos romeiros de Lisboa de 1739 e fragmento de painel de azulejos.

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Procissão em honra de N.ª Sr.ª da Peninha, 1992. Parte dos festeiros desse ano eram de Janes e Malveira.

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Interior da capela da Peninha. 1987.

 

* Livro de Registo das Visitações, fl. 8, 8 de Março de 1657.

Fonte:

Livro "Registo fotográfico de alcabideche e alguns apontamentos histórico-administrativos" realizado por Guilherme Cardoso, Jorge Miranda e Carlos A. Teixeira com o apoio da Junta de Freguesia de Alcabideche, C.M. de Cascais, Associação Cultural de Cascais e Assembleia Distrital de Lisboa em 2009.